Quando Absorvemos o Estresse do Outro: O Que é e o que não é aceitável?

Entenda como absorver repetidamente o estresse do parceiro pode afetar sua saúde emocional. Saiba o que a psicologia dos relacionamentos ensina sobre acomodação, limites e respostas construtivas.

Giovani Campregher

10/20/20263 min read

No artigo anterior, contei sobre uma cena que presenciei num hospital (um homem descontando o próprio estresse na esposa, deixando-a para trás sem qualquer justificativa real), aquela cena levantou uma questão que vai além do comportamento dele, me fez pensar sobre o que acontece com quem absorve, repetidamente, esse tipo de tratamento.

Existe um padrão estudado pela psicologia chamado processo de acomodação em relacionamentos. A pesquisadora Caryl Rusbult, num dos estudos mais citados sobre o tema, publicado no Journal of Personality and Social Psychology, define acomodação como a disposição de, diante de um comportamento potencialmente destrutivo do parceiro, conter o impulso de reagir mal e responder de forma construtiva. Em doses saudáveis, isso é positivo e faz parte de qualquer relacionamento maduro, onde ambos escolhem não reagir a cada pequena frustração do outro.

O problema começa quando essa acomodação se torna unilateral e constante ou seja, quando uma pessoa absorve repetidamente o mau humor, a explosão ou o descaso do outro, sem que exista qualquer limite comunicado sobre isso. E aqui está o ponto central: limites não são o que dizemos ao outro para ele fazer. Segundo especialistas em psicologia de relacionamentos, limites são decisões internas sobre três coisas: o que você tolera emocionalmente, o que você não aceita, e o que você faz quando aquilo que te incomoda não muda.

Isso explica porque padrões destrutivos se repetem por tanto tempo dentro de um relacionamento, pois cada vez que um limite é ultrapassado sem nenhuma consequência real, isso ensina (de forma silenciosa) o que é aceitável dentro daquela relação. E é importante ressaltar que este ponto não é sobre culpar quem absorve o comportamento repetidamente e sim sobre entender que, sem comunicação clara e sem consequências reais quando algo incomoda, o padrão tende a se repetir e muitas vezes se intensificar.

É importante dizer, com honestidade: não sabemos os detalhes daquela cena específica que presenciei. Não conhecemos a história daquele casal, o contexto daquele dia, nem se aquilo representa a rotina inteira da relação deles ou foi um momento isolado de estresse. Não cabe a nós, como observadores externos, decidir o que aquela mulher específica deveria sentir ou fazer.

Mas a cena serve como ponto de partida valioso para uma reflexão mais ampla, que vale para qualquer pessoa: Você reconhece em si mesmo o hábito de absorver repetidamente o mau humor de alguém? E quando isso acontece qual a sua reação? Você tenta comunicar como isso te afeta? Essas são perguntas que valem muito a pena serem feitas por nós mesmos e mais importante ainda é refletir sobre as respostas que obtivemos. Como já vimos no artigo sobre limites, impor um limite não é sobre mudar o comportamento do outro à força, é sobre comunicar com clareza o que você aceita e o que não aceita, e decidir o que fazer quando esse limite continua sendo ultrapassado.

E aqui vale reforçar algo muito importante, nós não mudamos ninguém através da nossa própria transformação, cada pessoa muda por escolha própria. O que podemos controlar é a nossa resposta, a comunicação clara do que precisamos, e a decisão sobre até onde estamos dispostos a ir quando algo continua incomodando sem nenhuma mudança real.

E como aplicar isso na prática? Se você reconhece que absorve repetidamente algo que te machuca num relacionamento, pergunte a si mesmo: Eu já comuniquei com clareza que essa atitude me machuca para a outra pessoa? Ou tenho apenas aceitado a situação esperando que ela perceba sozinha? Comunicação direta, feita com calma, na hora certa (não no momento de "explosão" da pessoa) e sem acusação, é o primeiro passo antes de qualquer decisão maior sobre o relacionamento.

É bom lembrar que relacionamentos saudáveis não são livres de estresse externo ou de dias difíceis, o problema está na constância com que essas situações interferem e ou machucam quem está no relacionamento. É importante ressaltar que em um relacionamento saudável ambos são capazes de comunicar os limites com clareza e de entender algumas quebras desses limites, mas que não devemos aceitar sempre em silêncio essas quebras quando elas se tornam constantes.

Se esse artigo te fez refletir sobre algum padrão que você vive absorvendo sem nunca comunicar, talvez seja a hora de conversar sobre isso. Compartilha com alguém que também precisa dessa reflexão.