Estresse: A Doença do Presente
Se a ansiedade é a doença de quem vive no futuro, o estresse é a doença de quem está sendo consumido pelo presente. Aprenda como usar o estresse a seu favor
Giovani Campregher
7/23/20263 min read


Se a ansiedade é a doença de quem vive no futuro, o estresse é a doença de quem está sendo consumido pelo presente. É aquela sensação de que tudo ao redor está pesando ao mesmo tempo — o trabalho, o relacionamento, as finanças, as responsabilidades e que não existe espaço para respirar.
Mas antes de falar sobre o estresse que adoece, precisamos falar sobre o estresse que nos faz crescer. Porque assim como a ansiedade tem um lado saudável, o estresse também tem.
Um ótimo exemplo de estresse do bem é o muscular. Quando vamos à academia e treinamos, estamos estressando o músculo provocando pequenas rupturas nas fibras musculares. E é exatamente esse estresse que faz o músculo crescer. Sem estresse, não há adaptação. Não há crescimento. Mas se ficarmos estressando o músculo além do limite, sem descanso, sem recuperação, ele rompe. O que era crescimento vira lesão.
O cérebro é como um musculo e funciona praticamente da mesma forma
O pesquisador Hans Selye foi o primeiro a nomear essa diferença cientificamente. Ele chamou de eustresse o estresse positivo — aquele que nos prepara, nos foca e nos faz performar melhor. E chamou de distresse o estresse negativo — aquele que nos consome, nos desgasta e, quando se torna crônico, adoece.
No dia a dia, o eustresse aparece em situações como entrar em quadra numa partida de basquete. Você sente a pressão, o coração acelera, a concentração aumenta. Seu corpo está estressado mas de forma positiva, te preparando para o que vem. Quando a partida termina, o estresse vai embora. Você descansa, recupera e fica mais forte para a próxima.
O problema é quando o estresse não vai embora. Quando cada situação do dia, uma mensagem no celular, um trânsito, uma cobrança, uma conta, gera a mesma resposta de alerta que uma ameaça real. O corpo fica em estado de guerra permanente, sem nunca ter a chance de descansar.
A ciência explica o que acontece por dentro. Quando nos estressamos, o cérebro libera cortisol — o hormônio do estresse. Em doses certas, o cortisol é útil: aumenta o foco, libera energia, prepara o corpo para agir. Mas quando o estresse vira crônico e o cortisol fica elevado por muito tempo, os efeitos são devastadores. Pesquisas mostram que o estresse crônico pode encolher o hipocampo, região responsável pela memória e pelo aprendizado em até 15%. Reduz o volume das áreas do cérebro ligadas à tomada de decisão. E aumenta a atividade da amígdala, a região do medo e da raiva, tornando a pessoa mais reativa, mais impulsiva e mais propensa a descontar nos outros o que está sentindo por dentro.
É por isso que pessoas cronicamente estressadas ficam mal-humoradas com facilidade, perdem a paciência por coisas pequenas e muitas vezes descontam em quem menos merece, a família, os filhos, o parceiro. Não é falta de caráter. É um cérebro que nunca descansa, operando sempre no limite.
E aqui está o ponto mais importante: o estresse crônico é a doença do presente mal gerenciado. É viver cada momento como se fosse uma emergência. É reagir a tudo com a mesma intensidade, ao que é urgente e ao que não é. É não conseguir separar o que merece atenção do que merece ser deixado para lá.
A ansiedade nos prende num futuro que não existe. O estresse nos esmaga num presente que não conseguimos filtrar. E quando os dois andam juntos, a preocupação com o que ainda vai acontecer somada à pressão do que está acontecendo agora, o peso se torna quase insuportável.
Como começar a trabalhar isso agora? O primeiro passo é aprender a separar o que é urgente do que é apenas barulho. Nem tudo que parece urgente é importante. Nem tudo que incomoda merece a mesma resposta de alerta. Quando sentirmos o estresse chegando, vale perguntar: isso vai importar daqui a uma semana? Daqui a um mês? Se a resposta for não, o nível de energia que estamos colocando nisso precisa ser revisto.
O estresse saudável nos prepara. O estresse crônico nos destrói. A dosagem certa faz toda a diferença tanto no músculo, quanto na mente.
